Palhaços, mágicos, malabaristas e outras atrações artísticas

 

Respeitável público, hoje é o Dia Nacional do Circo! Não, não irei falar do meu trabalho novamente. ¬¬ Não quero vê-los ir do riso à repugnância, em tão pouco tempo. Pois eu não gosto de trabalhar, se o sentido da palavra for o de trocar horas de vida por dinheiro, ou energia vital (leia-se saúde) por dinheiro. Diz-se que “o trabalho é a melhor e a pior das coisas: a melhor, se for livre; a pior, se for escravo” (Émile-Auguste Chartier, "Alain"). Não sei bem o que é a primeira. Por ter me deixado levar pelas circunstâncias de outrora, por uma mera falta de uma reflexão mais profunda sobre o que eu queria, sou há alguns anos como um robô taylorista. E não irascível. Eis o triste cenário que foi armado, de uma hora para outra, em direção ao mesmo caminho medíocre dos outros. Mas não nos preocupemos com isso, agora. Não devemos dar muita bola.

Haja vista a alegria do ano passado ser de hoje! Lembro-me quando escrevi dois artigos, neste blog, a respeito da comemoração circense. Em ambos, na verdade, versava um pouco sobre o trabalho escolar da minha vizinha Layza, de uns sete aninhos (deve estar fazendo oito, já já). Ela é muito simpática, contente, cativante. Por alguma razão, nesta época, vem me pedir para fazer desenhos a mão sobre a data. Eu não sou bom desenhista, se é que me entendem. Todavia, a despeito disso, sempre faço. E com muito gosto!

Neste ano, por exemplo, Layza me pediu o mesmo desenho do ano anterior. Fiz novamente à mão, na cartolina, o palhacinho e o seu circo. No caso do circo, empolguei-me mais e o editei, também, através do Photoshop. Incrementei a paisagem, outrora vazia. Vocês podem ver o processo de criação resumidamente abaixo:

 

Clique nas figuras, para ampliar…

KY - Circo, desenho de 2010~>KY - Circo, com esboço do céu

~> KY - Circo, com esboço do terreno~>KY - Circo, com paisagem completa

 

Além disso, desse passatempo que é desenhar, mostra-se um tanto engraçado, principalmente para um perfeccionista como eu, quando a gente lê o trabalho, vê os erros de português e, ainda assim, prefere não os corrigir. “Fica mais original”, penso eu. Diria mais honesto e menos intransigente para com uma criança. Em “Cer Criança Cempre” deixei explícito que não sou austero, no próprio título. Ao contrário do que vem acontecendo no órgão em que labuto, eu procuro va-lo-ri-zar os erros. Humberto Gessinger, líder da banda Engenheiros do Hawaii, sabia muito bem a importância desta valorização e, numa canção, disse: “Se eu soubesse antes o que sei agora, erraria tudo exatamente igual”.

Isso pode parecer estranho ou faceto é verdade, mas não estou sendo cínico, pois errar é bom de fato! Uma criança (e o adulto) quando erra, aprende. E mais: dissemina o aprendizado (se o ambiente for propício, lógico, o que não é o caso de alguns setores de minha Autarquia). Tratar um erro como algo terrível e passível de críticas, causará dois efeitos negativos: comodismo e medo. Coisas que nos “travam”. Quem terá coragem de correr riscos, sabendo que se errar será praticamente linchado?

Daí porque vejo com bons olhos as imperfeições alheias. Não exijo de ninguém a perfeição! Isso é o cúmulo de quem comina. O culminar do acme da loucura, é reclamar o impossível. O dever da perfeição é o maior empecilho à criatividade e à inovação, diz Luiz Carlos Cabrera, professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV). Porquanto o homem é imperfeito e, por isso, maravilhosamente humano. Errou? “Faça de novo”, Cabrera simplifica. “Um erro deve ser corrigido, e não punido”, apõe o filósofo Mario Sergio Cortella.

Claro que estamos falando dos erros que representam uma falha, algo que não foi feito com dolo ou má-fé. Falamos do erro comum que todos podem cometer, mas que somente poucos admitem. Pior ainda é o profissional mentiroso e tartufo que acredita que a melhor atitude é esconder o erro ou não falar dele. O erro é para ser discutido, analisado e, aí sim, corrigido.

Correção melhor, cogente, seria a substituição do trabalho entediante, cansativo – que a gente pode entregar às máquinas – pelo ócio criativo, defendido por Domenico de Masi, conceito no qual as atividades de trabalho, estudo e jogos devem se confundir nas atividades diárias do sujeito. Entretanto, um pensamento comum em empresas comuns, que não seguem essa linha, é outro: o que funcionou até agora, não precisa ser mexido! Esse é um dos maiores erros de gestão, uma vez que vai exatamente contra a inovação. Afinal, como enfatiza o próprio De Masi, “o controle não serve para nada, senão para inibir a criatividade”. Urge, destarte, uma revisão das regras que dominam a produção intelectual.

O elemento lúdico do ócio criativo, aliás, eu destaco como a forma de evitar a mecanização das tarefas, dando-lhes "alma". Rememorando-me, daí, os afazeres do palhaço e, em parte, a minha escrita através de alguns blogs – mesmo que amadora – nos quais descobri a única atividade que exerço sem a mínima sensação de peso, ou fardo. É algo intrinsecamente natural. Para mim, uma diversão como a procedente de um jogo. Parece até que estou clamando, nesta última frase, por tal forma de trabalho: digno, de lazer, o que vem a ser um virtuoso meio de supervivência sem excluir imperiosamente o entretenimento. E se equivoca, pois, quem trata o referido ócio e a inação como entes iguais.

O tipo de ócio, enfim, que Domenico De Masi pontua é diferente do que a palavra inspira – muita sombra, água fresca e nenhuma ocupação para o resto da vida. Sob este ponto de vista diverso, o ócio pode transformar-se em violência, neurose, vício e preguiça. O ócio criativo que o autor acastela, por sua vez, tem outro significado: está associado à criatividade, à liberdade e à arte. Note-se aí um grande distanciamento.

KY - Thúlio Jardim, O Palhaço OscilaAh, e o circo onde fica nessa história? Dentro ou fora de um ócio criativo!? É possível ser empregado do picadeiro sem aliar trabalho, aprendizagem e o sorriso superveniente do lazer??? Infelizmente, pro nosso pesar, creio que é possível sim. Particularmente porque me sinto às vezes o palhaço do oscilômetro – “o oscila” – ou parente do palhaço do circo sem futuro. Este, o personagem do Cordel do Fogo Encantado, já dizia: “Pai, me ensina a ser palhaço.” Pai, me ensina a sorrir à noite, um sorriso que se mostre pr’essa gente. Nesse mundo que é triste, debaixo dessa lona rasgada, desculpa ter ignorado o circo, pai, me empresta esse sorriso. Esse mundo está doente, o palhaço mal responde. O circo está pegando fogo. “E essa tragédia que é viver, e essa tragédia. Tanto amor que fere e cansa”. Nem tudo traz brio, apronto-me a assoalhar.

Porém em que momento parei e citei que seria fácil para todo mundo se tornar palhaço? Que não amolga em nós, também, pensar na possibilidade de que há palhaços pálidos, de semblante abatido, mas não pela maquiagem? Meu caro, para ser um verdadeiro palhaço de circo é preciso muito treino e estudo. Existe, inclusive, um nome específico para quem quer se instruir na carreira: palhaçaria. Sapatos grandes, nariz vermelho e roupas coloridas não bastam. Assim, não espere que se vestindo de forma engraçada e fazendo caretas esteja a se equivaler a tal figura.

Ademais, não só de humor picante vive o anfiteatro. Nos espetáculos, há um aspecto bem triste: o dos animais. As imagens deles, dóceis e felizes, como é apresentada pelos proprietários do circo, não condiz com os detalhes horríveis vivenciados, por todas as espécies, até a morte. Muitos, além de passarem fome, ficam confinados em espaços minúsculos. Seu treinamento é baseado no medo, na tortura e na anulação dos seus próprios instintos, ou seja, um tratamento alarmante e inaceitável. O elefante artista e o urso que anda de bicicleta, a platéia admira. Sem saber que neles nem sempre se abriga a sorte, a alegria.


"Felicidade é a única coisa que podemos dar sem possuir. " (Voltaire)

Apesar de tudo isso, não abafo minha facécia. Sigo firmemente a frase de Voltaire e não escondo a face para um gracejo. Tenho esse jeito sabido de não me apresentar como estou, desenxabido e estanguido, para não acender dores em quem está quieto ou, no instante, folgazão. Se fizesse isso prestaria um desserviço à humanidade. Causaria, escusadamente, ansiedades.

Melhor lembrar-me do que enseja a alacridade. E na data presente fazer tributo ao histórico palhaço Abelardo Pinto. Mais conhecido pelo apelido Piolin, dado por artistas espanhóis, numa referência a um tipo de barbante, em virtude do homem ser magro, de pernas compridas e muito flexível (além de palhaço, era ginasta e equilibrista). Para ter ciência da importância do Piolin para o circo no Brasil, é ideal entender que, durante muitos anos, nosso país comemorou o dia 15 de março como o Dia do Circo, seguindo o calendário internacional. Contudo, para prestar uma merecida homenagem ao nosso grande palhaço, a data foi alterada para coincidir com o aniversário dele, sendo oficializado o dia 27 de março como “Dia Nacional do Circo".

E para terminarmos este artigo com chave de ouro, não podia esquecer de citar os números de mágica, acrobacia e malabarismo indispensáveis para dar o ar da fantasia e encantamento maior ao “show”. Há ginastas e equilibristas que, tal como os palhaços, levam regozijo ao público através de suas apresentações artísticas, algumas, diga-se, muito arriscadas. Mas, meu camarada, quem não gosta do suspense do circo?! Quem não se lembra do atirador de facas? E do contorcionismo da mulher borracha e de outros personagens de força, agilidade e flexibilidade??? O circo é indiscutível arte!

E é pelo exposto acima que não me parece coincidência celebrar, no nosso Dia do Circo, o Dia Internacional do Teatro – data da inauguração do Teatro das Nações em Paris. Teatro e circo: grandes eventos em que as pessoas se reúnem para se divertir com palhaços, mágicos, malabaristas e outras atrações artísticas.

 

 

Thúlio Jardim. Recife, 27 de março de 2011.

 


 

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